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Fãs de Fórmula 1 puderam viver uma experiência diferente neste fim de semana de GP do México. Pela primeira vez na história da categoria, uma corrida foi transmitida ao vivo de graça na internet – mais precisamente na plataforma de games Twitch, mesmo que apenas para público de seis países da Europa. Foi um passo inovador e bem recebido, mas que ao mesmo tempo abre as portas para uma série de dilemas que precisam ser resolvidos.

 

Comecemos pelo lado positivo. Para uma proposta que tinha cara de tubo de ensaio, a transmissão no Twitch correu de forma surpreendentemente suave. Os fãs de Alemanha, Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Suécia e Suíça não enfrentaram qualquer problema técnico. Pelo contrário: houve relatos de que, principalmente na sexta-feira, a qualidade das imagens e estabilidade da transmissão superava até mesma a vista na F1 TV, plataforma oficial – e paga – de transmissão ‘on demand’ da categoria.

 

Isso foi uma verdadeira benção para fãs que, em condições normais, provavelmente iriam recorrer a meios ilegais para acompanhar a F1. O mesmo público que separa o notebook para acessar o Twitch seria capaz de pesquisar ‘stream F1 ao vivo’ no google para encontrar um link pirateado. Este, além de ser simplesmente ilegal, também carrega problemas inerentes como delay e instabilidade. No Twitch, nada disso foi visto.

 

Além disso, o Twitch conta com ferramentas que vem a calhar em uma transmissão ao vivo. O público conta com um chat, que em condições normais seria utilizado para comentar a transmissão de alguém jogando videogame. No caso da F1, foi possível expressar opiniões e interagir, algo que não é possível em nenhum outro formato. É importante ressaltar que a ferramenta, apesar de existir, acabou não sendo tão bem utilizada assim – afinal, o público parecia mais empolgado em compartilhar memes ou reclamar sem motivo.

O GP do México trouxe uma experiência nova para o público; uma transmissão pelo Twitch (Foto: McLaren)

Foi inovador? Foi. Foi um sucesso? Em sua grande maioria, sim. É uma experiência que merece ser repetida? Sem dúvida. Só que o formato, para ser viável no longo prazo, precisa resolver questões fundamentais.

 

Isso fica cristalino só de olhar a lista de países contemplados. Quatro não contam com pilotos no grid atual da F1, sendo que dois nunca tiveram. Por mais que a Alemanha seja um mercado de peso, só públicos secundários tiveram a chance. Isso tem a ver com a dificuldade que é lidar com direitos de transmissão: grandes mercados implicam em grandes fortunas na assinatura de contratos entre emissoras e categoria. E essas emissoras certamente não ficam felizes ao imaginar uma transmissão ao vivo de graça na internet.

 

Um bom exemplo de como essa ginástica funciona é a transmissão britânica, via Sky Sports. A narração de David Croft e os comentários de Martin Brundle até estão disponíveis na F1 TV para diversos países, mas é necessário pagar a assinatura. O conteúdo vai até para o YouTube, no canal oficial da F1, mas apenas horas após uma corrida ou treino classificatório. Uma transmissão ao vivo e de graça ao mesmo tempo? Aí é forçar a amizade.

 

E isso ficou evidente na transmissão do Twitch. Não havia opção de narração em inglês, algo que tornaria o experimento em rival direto da Sky Sports. Ao invés disso, a transmissão oficial era em… sueco, língua falado por um total de apenas 13,2 milhões de pessoas ao redor do mundo. Havia também a opção de consumir o conteúdo em alemão, idioma notoriamente mais popular, mas apenas com narração e comentários de gamers do Twitch, selecionados especialmente para cobrir o GP do México. De forma informal, claro, e sem o mesmo preparo de uma equipe profissional de narradores e comentaristas.

É difícil imaginar como F1 TV e transmissões no Twitch possam coexistir (Foto: F1)

Isso é um problema grave. Não há como esse formato de transmissões no Twitch decolar sem conteúdo em inglês, ou ao menos em um outro idioma popular. E, no que depender de emissoras como a Sky Sports, não há como esperar que isso ocorra facilmente.

 

Falando em choque de interesses, a F1 acaba por ter um interno. Se o Twitch virar uma alternativa para o futuro, qual o sentido de assinar a F1 TV? O serviço de streaming, apesar de inovador para a categoria, ainda cambaleia quando o assunto é qualidade. Perda de sinal durante a prova, forçando manutenções emergenciais, é o principal problema. E isso não aconteceu no Twitch, que em teoria deveria ser o pior serviço por ser de graça e em uma plataforma que não foi pensava para este propósito.

 

Tudo isso mostra uma F1 que flerta mais e mais com uma abertura no mundo digital, mas que ainda não sabe muito bem como o fazer. O aceno ao Twitch foi uma manobra ousada, mas que não deve se repetir tão cedo – ou ao menos não de forma tão recorrente. São muitas questões a serem resolvidas com players importantes.

 

Mesmo que o experimento não se repita tão cedo, ou até mesmo seja descartado por completo, a F1 tem muito mérito. Abrir-se para uma plataforma gamer é um passo importante para cultivar um novo público, mais jovem e necessário. Só que vai ser necessária uma boa dose de criatividade antes de transformar isso em algo duradouro.

 

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Fonte Oficial: Grande Prêmio

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